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Frações do Evangelho segundo o Espiritismo

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Espiritismo

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Abaixo, pequenas passagens do Evangelho Segundo o Espiritismo,

de Allan Kardec.

Aconselhamos a ler na íntegra este livro tão importante para a doutrina espírita.

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O Evangelho Segundo o Espiritismo.

Capítulo V

 
O SUICÍDIO E A LOUCURA
 
14. A calma e a resignação adquiridas na maneira de encarar a vida terrena, e a fé no futuro,
dão ao Espírito uma serenidade que é o melhor preservativo da loucura e do suicídio. Com
efeito, a maior parte dos casos de loucura são provocados pelas vicissitudes que o homem
não tem forças de suportar. Se, portanto, graças à maneira porque o Espiritismo o faz encarar
as coisas mundanas, ele recebe com indiferença, e até mesmo com alegria, os revezes e as
decepções que em outras circunstâncias o levariam ao desespero, é evidente que essa força,
que o eleva acima dos acontecimentos, preserva a sua razão dos abalos que o poderiam
perturbar.
 
15. O mesmo se dá com o suicídio. Se excetuarmos os que se verificam por força da
embriaguez e da loucura, e que podemos chamar de inconscientes, é certo que, sejam quais
forem os motivos particulares, a causa geral é sempre o descontentamento. Ora, aquele que
está certo de ser infeliz apenas um dia, e de se encontrar melhor nos dias seguintes, facilmente
adquire paciência. Ele só se desespera se não ver um termo para os seus sofrimentos. E o que
é a vida humana, em relação à eternidade, senão bem menos que um dia? Mas aquele que
não crê na eternidade, que pensa tudo acabar com a vida, que se deixa abater pelo
desgosto e o infortúnio, só vê na morte o fim dos seus pesares. Nada esperando, acha muito
natural, muito lógico mesmo, abreviar as suas misérias pelo suicídio.
 
16. A incredulidade, a simples dúvida quanto ao futuro, as idéias materialistas, em uma
palavra, são os maiores incentivadores do suicídio: elas produzem a frouxidão moral. Quando
vemos, pois, homens de ciência, que se apóiam na autoridade do seu saber, esforçarem-se
para provar aos seus ouvintes ou aos seus leitores, que eles nada têm a esperar depois da
morte, não o vemos tentando convencê-los de que, se são infelizes, o melhor que podem fazer
é matar-se? Que poderiam dizer para afastá-los dessa idéia? Que compensação poderão
oferecer-lhes? Que esperanças poderão propor-lhes? Nada além do nada! De onde é forçoso
concluir que, se o nada é o único remédio heróico, a única perspectiva possível, mais vale
atirar-se logo a ele, do que deixar para mais tarde, aumentando assim o sofrimento.
 
A propagação das idéias materialistas é, portanto, o veneno que inocula em muitos a idéia do
suicídio, e os que se fazem seus apóstolos assumem uma terrível responsabilidade. Com o
Espiritismo, a dúvida não sendo mais permitida, modifica-se a visão da vida. O crente sabe que
a vida se prolonga indefinidamente para além do túmulo, mas em condições inteiramente
novas. Daí a paciência e a resignação, que muito naturalmente afastam a idéia do suicídio.
Daí, numa palavra, a coragem moral.
 
17. O Espiritismo tem ainda, a esse respeito, outro resultado igualmente positivo, e talvez mais
decisivo. Ele nos mostra os próprios suicidas revelando a sua situação infeliz, e prova que
ninguém pode violar impunemente a lei de Deus, que proíbe ao homem abreviar a sua vida.
Entre os suicidas, o sofrimento temporário, em lugar do eterno, nem por isso é menos terrível,
e sua natureza dá o que pensar a quem quer que seja tentado a deixar este mundo antes da
ordem de Deus. O espírita tem, portanto, para opor à idéia do suicídio, muitas razões: a
certeza de uma vida futura, na qual ele sabe que será tanto mais feliz quanto mais infeliz e
mais resignado tiver sido na Terra; a certeza de que, abreviando sua vida, chega a um
resultado inteiramente contrário ao que esperava; que foge de um mal para cair noutro ainda
pior, mais demorado e mais terrível; que se engana ao pensar que, ao se matar, irá mais
depressa para o céu; que o suicídio é um obstáculo à reunião, no outro mundo, com as
pessoas de sua afeição, que lá espera encontrar. De tudo isso resulta que o suicídio, só lhe
oferecendo decepções, é contrário aos seus próprios interesses. Por isso o número de
suicídios que o Espiritismo impede é considerável, e podemos concluir que, quando todos
forem espíritas, não haverá mais suicídios conscientes. Comparando, pois, os resultados das
doutrinas materialista e espírita, sob o ponto de vista do suicídio, vemos que a lógica de uma
conduz a ele, enquanto a lógica de outra o evita, o que é confirmado pela experiência.




Bem aventurados os aflitos
 
MOTIVOS DE RESIGNAÇÃO

12. Pelas palavras bem-aventurados os aflitos, porque eles serão consolados, Jesus indica, ao
mesmo tempo, a compensação que espera os que sofrem e a resignação que nos faz bendizer
o sofrimento, como o prelúdio da cura.
Essas palavras podem, também, ser traduzidas assim: deveis considerar-vos felizes por sofrer,
porque as vossas dores neste mundo são as dívidas de vossas faltas passadas, e essas dores,
suportadas pacientemente na Terra, vos poupam séculos de sofrimento na vida futura. Deveis,
portanto, estar felizes por Deus ter reduzido vos — sãs dívidas, permitindo-vos quitá-las no
presente, o que vos assegura a tranqüilidade para o futuro.

O homem que sofre é semelhante a um devedor de grande soma, a quem o credor dissesse:
"Se me pagares hoje mesmo a centésima parte, darei quitação do resto e ficarás livre; se
não, vou perseguir-te até que pagues o último centavo". O devedor não ficaria feliz de
submeter-se a todas as privações, para se livrar da dívida pagando somente a centésima
parte da mesma? Em vez de queixar-se do credor, não lhe agradeceria?
É esse o sentido das palavras: "Bem-aventurados os aflitos, porque eles serão consolados".
Eles são felizes porque pagam suas: dívidas, e porque, após a quitação, estarão livres. Mas
se, ao procurar quitá-las de um lado, de outro se endividarem, nunca se tornarão; livres. Ora,
cada nova falta aumenta a dívida, pois não existe uma única falta, qualquer que seja, que
não traga consigo a própria punição, necessária e inevitável. Se não for hoje, será
 
amanhã; se não for nesta vida, será na outra. Entre essas faltas, devemos colocarem primeiro
lugar a falta de submissão à vontade de Deus, de maneira que, se reclamamos das aflições, se
não as aceitamos com resignação, como alguma coisa que merecemos, se acusamos a Deus
de injusto, contraímos uma nova dívida, que nos faz perder os benefícios; do sofrimento. Eis
porque precisamos recomeçar, exatamente como se, a um credor que nos atormenta,
enquanto pagamos as contas, vamos pedindo novos empréstimos.

Ao entrar no mundo dos Espíritos, o homem é semelhante ao trabalhador que comparece no
dia de pagamento. A uns, dirá o patrão: "Eis a paga do teu dia de trabalho". A outros, aos
felizes da Terra, aos que viveram na ociosidade, que puseram a sua felicidade na satisfação do
amor-próprio e dos prazeres mundanos, dirá: "Nada tendes a receber, porque já recebestes o
vosso salário na Terra. Ide, e recomeçai a vossa tarefa".

13. O homem pode abrandar ou aumentar o amargor das suas provas, pela maneira de
encarar a vida terrena. Maior é o seu sofrimento, quando o considera mais longo. Ora, aquele
que se coloca no ponto de vista da vida espiritual, abrange na sua visão a vida corpórea, como
um ponto do infinito, compreendendo a sua brevidade, sabendo que esse momento penoso
passa bem depressa. A certeza de um futuro próximo e mais feliz o sustenta e encoraja, e
em vez de lamentar-se, ele agradece ao céu as dores que o fazem avançar. Para aquele
que, ao contrário, só vê a vida corpórea, esta parece interminável, e a dor pesa sobre ele com
todo o seu peso. O resultado da maneira espiritual de encarar a vida é a diminuição de
importância das coisas mundanas, a moderação dos desejos humanos, fazendo o homem
contentar-se com a sua posição, sem invejar a dos outros, e sentir menos os seus revezes e
decepções. Ele adquire, assim, uma calma e uma resignação tão úteis à saúde do corpo como
à da alma, enquanto com a inveja, o ciúme e a ambição, entrega-se voluntariamente à tortura,
aumentando as misérias e as angústias de sua curta existência.






Bem aventurados os aflitos


ESQUECIMENTO DO PASSADO

11. É em vão que se aponta o esquecimento como um obstáculo ao aproveitamento da
experiência das existências anteriores. Se Deus considerou conveniente lançar um véu sobre o
passado, é que isso deve ser útil. Com efeito, a lembrança do passado traria inconvenientes
muito graves. Em certos casos, poderia humilhar-nos estranhamente, ou então exaltar o nosso
orgulho, e por isso mesmo dificultar o exercício do nosso livre-arbítrio. De qualquer maneira,
traria perturbações inevitáveis às relações sociais.

O Espírito renasce frequentemente no mesmo meio em que viveu, e se encontra em relação
com as mesmas pessoas, a fim de reparar o mal que lhes tenha feito. Se nelas reconhecesse
as mesmas que havia odiado, talvez o ódio reaparecesse. De qualquer modo, ficaria humilhado
perante aquelas pessoas que tivesse ofendido.

Deus nos deu, para nos melhorarmos, justamente o que necessitamos e nos é
suficiente: a voz da consciência e as tendências instintivas; e nos tira o quepoderia prejudicar-nos.
O homem traz, ao nascer, aquilo que adquiriu. Ele nasce exatamente como se fez. Cada
existência é para ele um novo ponto de partida. Pouco lhe importa saber o que foi: se está
sendo punido, é porque fez o mal, e suas más tendências atuais indicam o que lhe resta
corrigir em si mesmo. É sobre isso que ele deve concentrar toda a sua atenção, pois daquilo
que foi completamente corrigido já não restam sinais. As boas resoluções que tomou são a voz
da consciência, que o adverte do bem edo mal e lhe dá a força de resistir às más tentações.

De resto, esse esquecimento só existe durante a vida corpórea. Voltando à vida espiritual, o
Espírito reencontra a lembrança do passado. Trata-se, portanto, apenas de uma interrupção
momentânea, como a que temos na própria vida terrena, durante o sono, e que não nos
impede de lembrar, no outro dia, o que fizemos na véspera e nos dias anteriores.

Da mesma maneira, não é somente após a morte que o Espírito recobra a lembrança do
passado. Pode dizer-se que ele nunca a perde, pois a experiência prova que, encarnado,
durante o sono do corpo, ele goza de certa liberdade e tem consciência de seus atos
anteriores. Então, ele sabe porque sofre, e que sofre justamente. A lembrança só se apaga
durante a vida exterior de relação. A falta de uma lembrança precisa, que poderia ser-lhe
penosa e prejudicial às suas relações sociais, permite-lhes haurir novas forças nesses
momentos de emancipação da alma, se ele souber aproveitá-los.




Capítulo V

Bem aventurados os aflitos


CAUSAS ANTERIORES DAS AFLIÇÕES

6. Mas se há males, nesta vida, de que o homem é a própria causa, há também outros que,
pelo menos em aparência, são estranhos à sua vontade e parecem golpeá-lo por fatalidade.
Assim, exemplo, a perda de entes queridos e dos que sustentam a família. Assim também os
acidentes que nenhuma previdência pode evitar; os revezes da fortuna, que frustram todas as
medidas de prudência dos flagelos naturais; e ainda as doenças de nascença, sobretudo a Ias
que tiram aos infelizes a possibilidade de ganhar a vida pelo trabalho: as deformidades, a
idiotia, a imbecilidade etc.

Os que nascem nessas condições, nada fizeram, seguramente nesta vida, para merecer uma
sorte tão triste, sem possibilidade compensação, e que eles não puderam evitar, sendo
impotentes para modificá-las e ficando à mercê da comiseração pública. Por que, pois, esses
seres tão desgraçados, enquanto ao seu lado, sob o mesmo teto e na mesma família, outros
se apresentam favorecidos em todos os sentidos?

Que dizer, por fim, das crianças que morrem em tenra idade só conheceram da vida o
sofrimento? Problemas, todos esses, nenhuma filosofia resolveu até agora, anomalias que
nenhuma região pôde justificar, e que seriam a negação da bondade, da justiça e da
providência de Deus, segundo a hipótese da criação da alma ao mesmo tempo que o corpo,
e da fixação irrevogável da sua sorte após a permanência de alguns instantes na Terra. Que
fizeram elas essas almas que acabam de sair das mãos do Criador, para sofrerem tantas
misérias no mundo, e receberem, no futuro, uma recompensa ou uma punição qualquer, se
não puderam seguir nem o bem nem o mal?

Entretanto, em virtude do axioma de que todo efeito tem uma causa, essas misérias são efeitos
que devem ter a sua causa, e desde que se admita a existência de um Deus justo, essa causa
deve ser justa. Ora, a causa sendo sempre anterior ao efeito, e desde que não se encontra na
vida atual, é que pertence a uma existência precedente. Por outro lado, Deus não podendo
punir pelo bem que se fez, nem pelo mal que não se fez, se somos punidos, é que fizemos o
mal. E se não fizemos o mal nesta vida, é que o fizemos em outra. Esta é uma alternativa a
que não podemos escapar, e na qual a lógica nos diz de que lado está a justiça de Deus.
O homem não é, portanto, punido sempre, ou completamente punido, na sua existência
presente, mas jamais escapa às conseqüências de suas faltas. A prosperidade do mau é
apenas momentânea, e se ele não expia hoje, expiará amanhã, pois aquele que sofre está
sendo submetido à expiação do seu próprio passado. A desgraça que, à primeira vista, parece
imerecida, tem portanto a sua razão de ser, e aquele que sofre pode sempre dizer:
"Perdoai-me, Senhor, porque eu pequei".

7. Os sofrimentos produzidos por causas anteriores são sempre, como os decorrentes de
causas atuais, uma conseqüência natural da própria falta cometida. Quer dizer que, em virtude
de uma rigorosa justiça distributiva, o homem sofre aquilo que fez os outros sofrerem. Se ele foi
duro e desumano, poderá ser, por sua vez, tratado com dureza e desumanidade; se foi
orgulhoso, poderá nascer numa condição humilhante; se foi avarento, egoísta, ou se
empregou mal a sua fortuna, poderá ver-se privado do necessário; se foi mau filho,
poderá sofrer com os próprios filhos; e assim por diante.
É dessa maneira que se explicam, pela pluralidade das existências e pelo destino na Terra,
como mundo expiatório que é, as anomalias da distribuição da felicidade e da desgraça, entre
os bons e os maus neste mundo. Essa anomalia é apenas aparente, porque só encaramos o
problema em relação à vida presente; mas quando nos elevamos, pelo pensamento, de
maneira a abranger uma série de existências, compreendemos que a cada um é dado o que
merece, sem prejuízo do que lhe cabe no mundo dos Espíritos, e que a justiça de Deus nunca
falha.


O homem não deve esquecer-se jamais de que está num mundo inferior, onde só é retido
pelas suas imperfeições. A cada vicissitude, deve lembrar que, se estivesse num mundo mais
avançado, não teria de sofrê-la, e que dele depende não voltar a este mundo, desde que
trabalhe para se melhorar.

8. As tribulações da vida podem ser impostas aos Espíritos endurecidos, ou demasiado
ignorantes para fazerem uma escolha consciente, mas são livremente escolhidos e aceitas
pelos Espíritos arrependidos, que querem reparar o mal que fizeram e tentar fazer melhor.
Assim é aquele que, tendo feito mal a sua tarefa, pede para recomeçá-la, a fim de não perder
as vantagens do seu trabalho. Essas tribulações, portanto, são ao mesmo tempo expiações do
passado, que castigam, e provas para o futuro, que preparam. Rendamos graças a Deus que,
na sua bondade, concede aos homens a faculdade da reparação, e não o condena
irremediavelmente pela primeira falta.

9. Não se deve crer, entretanto, que todo sofrimento porque se passa neste mundo seja
necessariamente o indício de uma determinada falta: trata-se frequentemente de simples
provas escolhidas pelo Espírito, para acabar a sua purificação e acelerar o seu adiantamento.
Assim, a expiação serve sempre de prova, mas a prova nem sempre é uma expiação. Mas
provas e expiações são sempre sinais de uma inferioridade relativa, pois aquele que é perfeito
não precisa de ser provado. Um Espírito pode, portanto, ter conquistado um certo grau de
elevação, mas querendo avançar mais, solicita uma missão, uma tarefa, pela qual será
tanto mais recompensado, se sair vitorioso, quanto mais penosa tiver sido a sua luta. Esses
são, mais especialmente, os casos das pessoas de tendências naturalmente boas, de alma
elevada, de sentimentos nobres inatos, que parecem nada trazer de mau de sua precedente
existência, e que: sofrem com resignação cristã as maiores dores, pedindo forças a, Deus para
suportá-las sem reclamar. Podem-se, ao contrário, considerar como expiações as aflições que
provocam reclamações elevam o homem à revolta contra Deus.
O sofrimento que não provoca murmurações pode ser, sem dúvida, uma expiação, mas indica
que foi antes escolhido voluntariamente do que imposto; é a prova de uma firme resolução, o
que constitui sinal de progresso.

10. Os Espíritos não podem aspirar à perfeita felicidade enquanto não estão puros; toda
mancha lhes impede a entrada nos mundos felizes. Assim acontece com os passageiros de um
navio tomado pela peste, aos quais fica impedida a entrada numa cidade, até que estejam
purificados. É nas diversas existências corpóreas que os Espíritos se livram, pouco a pouco, de
suas imperfeições. As provas da vida fazem progredir, quando bem suportadas: como
expiações, apagam as faltas e purificam; são o remédio que limpa a ferida e cura o doente, e
quanto mais grave o mal, mais enérgico deve ser o remédio. Aquele, portanto, que muito sofre,
deve dizer que tinha muito a expiar e alegrar-se de ser curado logo. Dele depende, por meio da
resignação, tornar proveitoso o seu sofrimento e não perder os seus resultados por causa de
reclamações, sem o que teria de recomeçar.





Capítulo V

JUSTIÇA DAS AFLIÇÕES

3. As compensações que Jesus promete aos aflitos da Terra só podem realizar-se na vida
futura. Sem a certeza do porvir, essas máximas seriam um contra-senso, ou mais ainda,
seriam um engodo. Mesmo com essa certeza, compreende-se dificilmente a utilidade de sofrer
para ser feliz. Diz-se que é para haver mais mérito. Mas então se pergunta por que uns sofrem
mais do que outros; por que uns nascem na miséria e outros na opulência, sem nada
terem feito para justificar essa posição; por que para uns nada dá certo, enquanto para
outros tudo parece sorrir? Mas o que ainda menos se compreende é ver os bens e os males
tão desigualmente distribuídos entre o vício e a virtude; ver homens virtuosos sofrer ao lado
de malvados que prosperam. A fé no futuro pode consolar e proporcionar paciência, mas
não explica essas anomalias, que parecem desmentir a justiça de Deus.
 
Entretanto, desde que se admite a existência de Deus, não é possível concebê-lo sem suas
perfeições infinitas. Ele deve ser todo-poderoso, todo justiça, todo bondade, pois sem isso
não seria Deus. E se Deus é soberanamente justo e bom, não pode agir por capricho ou com
parcialidade. As vicissitudes da vida têm, pois, uma causa, e como Deus é justo, essa causa
deve ser justa. Eis do que todos devem compenetrar-se. Deus encaminhou os homens na
compreensão dessa causa pelos ensinos de Jesus, e hoje, considerando-se suficientemente
maduros para compreendê-la, revela-a por completo através do Espiritismo, ou seja, pela voz
dos Espíritos.
 
CAUSAS ATUAIS DAS AFLIÇÕES
4. As vicissitudes da vida são de duas espécies, ou, se quisermos, têm duas origens bem
diversas, que importa distinguir: umas têm sua causa na vida presente; outras, fora desta vida.
Remontando à fonte dos males terrenos, reconhece-se que muitos são a conseqüência natural
do caráter e da conduta daqueles que os sofrem. Quantos homens caem por sua própria culpa!
Quantos são vítimas de sua imprevidência, de seu orgulho e de sua ambição! Quantas
pessoas arruinadas por falta de ordem, de perseverança, por mau comportamento ou por não
terem limitado os seus desejos!
 
Quantas uniões infelizes, porque resultaram dos cálculos do interesse ou da vaidade, nada
tendo com isso o coração! Que de dissensões, de disputas funestas, poderiam ser evitadas
com mais moderação e menos suscetibilidade! Quantas doenças e aleijões são o efeito da
intemperança e dos excessos de toda ordem!
 
Quantos pais infelizes com os filhos, por não terem combatido as suas más tendências desde o
princípio. Por fraqueza ou indiferença, deixaram que se desenvolvessem neles os germes do
orgulho, do egoísmo e da tola vaidade, que ressecam o coração. Mais tarde colhendo o que
semearam, admiram-se e afligem-se com a sua falta de respeito e a sua ingratidão.
 
Que todos os que têm o coração ferido pelas vicissitudes e as decepções da vida, interroguem
friamente a própria consciência. Que remontem passo a passo à fonte dos males que os
afligem, e verão se, na maioria das vezes, não podem dizer: "Se eu tivesse ou não tivesse feito
tal coisa não estaria nesta situação".
 
A quem, portanto, devem todas essas aflições, senão a si mesmos? O homem é, assim, num
grande número de casos, o autor de seus próprios infortúnios. Mas, em vez de reconhecê-lo,
acha mais simples, e menos humilhante para a sua vaidade, acusar a sorte, a Providência, a
falta de oportunidade, sua má estrela, enquanto, na verdade, sua má estrela é a sua própria
incúria.
 
Os males dessa espécie constituem, seguramente, um número considerável das vicissitudes
da vida. O homem os evitará, quando trabalhar para o seu adiantamento moral e intelectual.
 
5. A lei humana alcança certas faltas e as pune. O condenado pode então dizer que sofreu a
conseqüência do que praticou. Mas a lei não alcança nem pode alcançar a todas as faltas. Ela
castiga especialmente as que causam prejuízos à sociedade, e não as que prejudicam apenas
os que as cometem. Mas Deus vê o progresso de todas as criaturas. Eis porque não deixa
impune nenhum desvio do caminho reto. Não há uma só falta, por mais leve que seja, uma
única infração à sua lei, que não tenha conseqüências forçosas e inevitáveis, mais ou menos
desagradáveis. Donde se segue que, nas pequenas como nas grandes coisas, o homem é
sempre punido naquilo em que pecou. Os sofrimentos consequentes são então uma
advertência de que ele andou mal. Dão-lhe a experiência e o fazem sentir, a diferença entre o
bem e o mal, bem como a necessidade de se melhorar, para evitar no futuro o que já foi para
ele uma causa de mágoas. Sem isso, ele não teria nenhum motivo para se emendar, e
confiante na impunidade, retardaria o seu adiantamento, e portanto a sua felicidade futura.
 
Mas a experiência chega, algumas vezes, um pouco tarde; e quando a vida já foi desperdiçada
e perturbada, gastas as forças, e o mal é irremediável, então o homem se surpreende a dizer:
"Se no começo da vida eu soubesse o que hoje sei, quantas faltas teria evitado; se tivesse
de recomeçar, eu me portaria de maneira inteiramente outra; mas já não há mais tempo!"
Como o trabalhador preguiçoso que diz: "Perdi o meu dia", ele também diz: "Perdi a minha
\/ida". Mas, assim como para o trabalhador o sol nasce no dia seguinte começa uma nova
Jornada, em que pode recuperar o tempo perdido, para ele também brilhará o sol de uma vida
nova, após a noite túmulo, e na qual poderá aproveitar a experiência do passado e em
execução suas boas resoluções para o futuro.





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CAPÍTULO XII

INSTRUÇÕES DOS ESPÍRITOS
A vingança

9. A vingança é um dos últimos remanescentes dos costumes bárbaros que tendem a
desaparecer dentre os homens. E, como o duelo, um dos derradeiros vestígios dos hábitos
selvagens sob cujos guantes se debatia a Humanidade, no começo da era cristã, razão por que
a vingança constitui indício certo do estado de atraso dos homens que a ela se dão e dos
Espíritos que ainda as inspirem. Portanto, meus amigos, nunca esse sentimento deve fazer
vibrar o coração de quem quer que se diga e proclame espírita. Vingar-se é, bem o sabeis, tão
contrário àquela prescrição do Cristo: "Perdoai aos vossos inimigos", que aquele que se nega
a perdoar não somente não é espírita como também não é cristão. A vingança é uma
inspiração tanto mais funesta, quanto tem por companheiras assíduas a falsidade e a baixeza.
Com efeito, aquele que se entrega a essa fatal e cega paixão quase nunca se vinga a céu
aberto. Quando é ele o mais forte, cai qual fera sobre o outro a quem chama seu inimigo,
desde que a presença deste último lhe inflame a paixão, a cólera, o ódio. Porém, as mais das
vezes assume aparências hipócritas, ocultando nas profundezas do coração os maus
sentimentos que o animam. Toma caminhos escusos, segue na sombra o inimigo, que de nada
 desconfia, e espera o momento azado para sem perigo feri-lo. Esconde-se do
outro, espreitando-o de contínuo, prepara-lhe odiosas armadilhas e, em sendo propícia a
ocasião, derrama-lhe no copo o veneno, Quando seu ódio não chega a tais extremos, ataca-o
então na honra e nas afeições; não recua diante da calúnia, e suas pérfidas insinuações,
habilmente espalhadas a todos os ventos, se vão avolumando pelo caminho.
 
 Em conseqüência, quando o perseguido se apresenta nos lugares por onde passou o sopro do
perseguidor, espanta-se de dar com semblantes frios, em vez de fisionomias amigas e
benevolentes que outrora o acolhiam. Fica estupefato quando mãos que se lhe estendiam,
agora se recusam a apertar as suas. Enfim, sente-se aniquilado, ao verificar que os seus mais
caros amigos e parentes se afastam e o evitam, Ah! o covarde que se vinga assim é cem vezes
mais culpado do que o que enfrenta o seu inimigo e o insulta em plena face.
 
Fora, pois, com esses costumes selvagens! Fora com esses processos de outros
tempos! Todo espírita que ainda hoje pretendesse ter o direito de vingar-se seria indigno de
figurar por mais tempo na falange que tem como divisa:  Sem caridade não há  salvação! Mas,
não, não posso deter-me a pensar que um membro da grande família espírita ouse jamais, de
futuro, ceder ao impulso da vingança, senão para perdoar. -  Júlio Olivier.  (Paris, 1862.)
 
O ódio
10. Amai-vos uns aos outros e sereis felizes. Tomai sobretudo a amar os que vos
inspiram indiferença, ódio, ou desprezo. O Cristo, que deveis considerar modelo, deu-vos o
exemplo desse devotamento, Missionário do amor, ele amou até dar o sangue e a vida por
amor, Penoso vos é o sacrifício de amardes os que vos ultrajam e perseguem; mas,
precisamente, esse sacrifício é que vos torna superiores a eles. Se os odiásseis, como vos
odeiam, não valeríeis mais do que eles. Amá-los é a hóstia imácula
que ofereceis a Deus na ara dos vossos corações, hóstia de agradável aroma e cujo perfume
lhe sobe até o seio. Se bem a lei de amor mande que cada um ame indistintamente a todos os
seus irmãos, ela não couraça o coração contra os maus procederes; esta é, ao contrário, a
prova mais angustiosa, e eu o sei bem, porquanto, durante a minha última existência terrena,
experimentei essa tortura. Mas Deus lá está e pune nesta vida e na outra os que violam a lei
de amor. Não esqueçais, meus queridos filhos, que o amor aproxima de Deus a criatura e o
ódio a distancia dele. - Fénelon,  (Bordéus, 1861.)






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Os inimigos desencarnados

5. Ainda outros motivos tem o espírita para ser indulgente com os seus inimigos. Sabe
ele, primeiramente, que a maldade não é um estado permanente dos homens; que ela decorre
de uma imperfeição temporária e que, assim como a criança se corrige dos seus defeitos, o
homem mau reconhecerá um dia os seus erros e se tornará bom,
Sabe também que a morte apenas o livra da presença material do seu inimigo, pois
que este o pode perseguir com o seu ódio, mesmo depois de haver deixado a Terra; que,
assim, a vingança, que tome, falha ao seu objetivo, visto que, ao contrário, tem por efeito
produzir maior irritação, capaz de passar de uma existência a outra. Cabia ao Espiritismo
demonstrar, por meio da experiência e da lei que rege as relações entre o mundo visível e o
mundo invisível, que a expressão: extinguir o ódio com o sangue  é radicalmente falsa, que a
verdade é que o sangue alimenta o ódio, mesmo no além-túmulo. Cabia-lhe, portanto,
apresentar uma razão de ser positiva e uma utilidade prática ao perdão e ao preceito do Cristo:
Amai os vossos inimigos. Não há coração tão perverso que, mesmo a seu mau grado, não se
mostre sensível ao bom proceder. Mediante o bom procedimento, tira-se, pelo menos, todo
pretexto às represálias, podendo-se até fazer de um inimigo um amigo, antes e depois de sua
morte. Com um mau proceder, o homem irrita o seu inimigo,  que então se constitui
instrumento de que a justiça de Deus se serve para punir aquele que não perdoou.


6. Pode-se, portanto, contar inimigos assim entre os encarnados, como entre os
desencarnados. Os inimigos do mundo invisível manifestam sua malevolência pelas
obsessões e subjugações com que tanta gente se vê a braços e que representam um gênero de
provações, as quais, como as outras, concorrem para o adiantamento do ser, que, por isso; as
deve receber com resignação e como conseqüência da natureza inferior do globo terrestre. Se
não houvesse homens maus na Terra, não haveria Espíritos maus ao seu derredor. Se,
conseguintemente, se deve usar de benevolência com os inimigos encarnados, do mesmo
modo se deve proceder com relação aos que se acham desencarnados.


Outrora, sacrificavam-se vítimas sangrentas para aplacar os deuses infernais, que não
eram senão os maus Espíritos. Aos deuses infernais sucederam os demônios, que são a
mesma coisa. O Espiritismo demonstra que esses demônios mais não são do que as almas dos
homens perversos, que ainda se não despojaram dos instintos materiais;  que ninguém logra
aplacá-los, senão mediante o sacrifício do ódio existente, isto é, pela caridade;  que esta não
tem por efeito, unicamente, impedi-los de praticar o mal e, sim, também o de os reconduzir
ao caminho do bem e de contribuir para a salvação deles. E assim que o mandamento:  Amai
os vossos inimigos  não se circunscreve ao âmbito acanhado da Terra e da vida presente; antes,
faz parte da grande lei da solidariedade e da fraternidade universais.




CAPÍTULO XII

AMAI OS VOSSOS INIMIGOS

Retribuir o mal com o bem


1.  Aprendestes que foi dito: “Amareis o vosso próximo e odiareis os vossos
inimigos.” Eu, porém, vos digo: “Amai os vossos inimigos; fazei o bem aos que vos
odeiam e orai pelos que vos perseguem e caluniam , a fim de serdes filhos do vosso Pai
que está nos céus e que faz se levante o Sol para os bons e para os maus e que chova
sobre os justos e os injustos. - Porque, se só amardes os que vos amam, qual será a vossa
recompensa? Não procedem assim também os publicanos? Se apenas os vossos irmãos
saudardes, que é o que com isso fazeis mais do que os outros? Não fazem outro tanto os
pagãos?” (S. MATEUS, cap. V, vv. 43 a 47.)

- “Digo-vos que, se a vossa justiça não for mais abundante que a dos escribas e
dos fariseus, não entrareis no reino dos céus.”(S. MATEUS, cap. V, v. 20.)

2.  “Se somente amardes os que vos amam, que mérito se vos reconhecerá, uma
vez que as pessoas de má vida também amam os que os amam? - Se o bem somente o
fizerdes aos que vo-lo fazem, que mérito se vos reconhecerá, dado que o mesmo faz a
gente de má vida? - Se só emprestardes àqueles de quem possais esperar o mesmo favor,
que mérito se vos reconhecerá, quando as pessoas de má vida se entreajudam dessa maneira,
para auferir a mesma vantagem? Pelo que vos toca,  amai os vossos inimigos, fazei bem a
todos e auxiliai sem esperar coisa alguma.
Então, muito grande será a vossa recompensa e sereis filhos do Altíssimo, que é bom
para os ingratos e até para os maus. - Sede, pois, cheios de misericórdia, como cheio de
misericórdia é o vosso Deus.” (S. LUCAS, cap. VI, vv. 32 a 36.)

3. Se o amor do próximo constitui o princípio da caridade, amar os inimigos é a mais
sublime aplicação desse princípio, porquanto a posse de tal virtude representa uma das
maiores vitórias alcançadas contra o egoísmo e o orgulho.
Entretanto, há geralmente equívoco no tocante ao sentido da palavra  amar,  neste
passo. Não pretendeu Jesus, assim falando, que cada um de nós tenha para com o seu inimigo
a ternura que dispensa a um irmão ou amigo. A ternura pressupõe confiança; ora, ninguém
pode depositar confiança numa pessoa, sabendo que esta lhe quer mal; ninguém pode ter para
com ela expansões de amizade, sabendo-a capaz de abusar dessa atitude. Entre pessoas que
desconfiam umas das outras, não pode haver essas manifestações de simpatia que existem
entre as que comungam nas mesmas idéias. Enfim, ninguém pode sentir, em estar com um
inimigo, prazer igual ao que sente na companhia de um amigo.

A diversidade na maneira de sentir, nessas duas circunstâncias diferentes, resulta
mesmo de uma lei física: a da assimilação e da repulsão dos fluidos. O pensamento malévolo
determina uma corrente fluídica que impressiona penosamente. O pensamento benévolo nos
envolve num agradável eflúvio. Daí a diferença das sensações que se experimenta à
aproximação de um amigo ou de um inimigo. Amar os inimigos não pode, pois, significar
que não se deva estabelecer diferença alguma entre eles e os amigos. Se este preceito parece
de difícil prática, impossível mesmo, é apenas por entender-se falsamente que ele manda se
dê no coração, assim ao amigo, como ao inimigo, o mesmo lugar. Uma vez que a pobreza da
linguagem humana obriga a que nos sirvamos do mesmo termo para exprimir
matizes diversos de um sentimento, à razão cabe estabelecer as diferenças, conforme aos
casos.

Amar os inimigos não é, portanto, ter-lhes uma afeição que não está na natureza, visto
que o contacto de um inimigo nos faz bater o coração de modo muito diverso do seu bater, ao
contacto de um amigo. Amar os Inimigos é não lhes guardar ódio, nem rancor, nem desejos
de vingança; é perdoar-lhes,  sem pensamento oculto e sem condições,  o mal que nos causem;
é não opor nenhum obstáculo a reconciliação com eles; é desejar-lhes o bem e não o mal; é
experimentar júbilo, em vez de pesar, com o bem que lhes advenha; é socorrê-los, em se
apresentando ocasião; é abster-se,  quer por palavras, quer por atos, de tudo o que os possa
prejudicar; é, finalmente, retribuir-lhes sempre o mal com o bem, sem a intenção de os
humilhar. Quem assim procede preenche as condições do mandamento: Amai os vossos
inimigos.

4. Amar os inimigos é, para o incrédulo, um contra-senso. Aquele para quem a vida
presente é tudo, vê no seu inimigo um ser nocivo, que lhe perturba o repouso e do qual
unicamente a morte. pensa ele, o pode livrar. Daí, o desejo de vingar-se. Nenhum interesse
tem em perdoar, senão para satisfazer o seu orgulho perante o mundo. Em certos casos,
perdoar-lhe parece mesmo uma fraqueza indigna de si. Se não se vingar, nem por isso deixará
de conservar rancor e secreto desejo de mal para o outro.
Para o crente e, sobretudo, para o espírita, muito diversa é a maneira de ver, porque
suas vistas se lançam sobre o passado e sobre o futuro, entre os quais a vida atual não passa
de um simples ponto. Sabe ele que, pela mesma destinação da Terra, deve esperar topar aí
com homens maus e perversos; que as maldades com que se defronta fazem parte das provas
que lhe cumpre suportar e o elevado ponto de vista em que se coloca lhe torna menos
amargas as vicissitudes, quer advenham dos homens, quer das coisas.  Se não se queixa das
provas, tampouco deve queixar-se dos que lhe servem de instrumento.

Se, em vez de se queixar, agradece a Deus o experimentá-lo,  deve também agradecer a mão
que lhe dá ensejo de demonstrar a sua paciência e a sua resignação.  Esta idéia o dispõe
naturalmente ao perdão. Sente, além disso, que quanto mais generoso for. tanto mais se
engrandece aos seus próprios olhos e se põe fora do alcance dos dardos do seu inimigo.
O homem que no mundo ocupa elevada posição não se julga ofendido com os insultos
daquele a quem considera seu inferior. O mesmo se dá com o que, no mundo moral, se eleva
acima da humanidade material. Este compreende que o ódio e o rancor o aviltariam e
rebaixariam. Ora, para ser superior ao seu adversário, preciso é que tenha a alma maior, mais
nobre, mais generosa do que a desse último.


CAPÍTULO 11 - AMAR AO PRÓXIMO COMO A SI MESMO
Caridade para com os criminosos

14. A verdadeira caridade constitui um dos mais sublimes ensinamentos que Deus deu
ao mundo. Completa fraternidade deve existir entre os verdadeiros seguidores da sua
doutrina. Deveis amar os desgraçados, os criminosos, como criaturas, que são, de Deus, às
quais o perdão e a misericórdia serão concedidos, se se arrependerem, como também a vós,
pelas faltas que cometeis contra sua Lei. Considerai que sois mais repreensíveis, mais
culpados do que aqueles a quem negardes perdão e comiseração, pois, as mais das vezes, eles
não conhecem Deus como o conheceis, e muito menos lhes será pedido do que a vós.
Não julgueis, oh! não julgueis absolutamente, meus caros amigos, porquanto o juízo
que proferirdes ainda mais severamente vos será aplicado e precisais de indulgência para os
pecados em que sem cessar incorreis. Ignorais que há muitas ações que são crimes aos olhos
do Deus de pureza e que o mundo nem sequer como faltas leves considera?

A verdadeira caridade não consiste apenas na esmola que dais, nem, mesmo, nas
palavras de consolação que lhe aditeis. Não, não é apenas isso o que Deus exige de vós. A
caridade sublime, que Jesus ensinou, também consiste na benevolência de que useis sempre e
em todas as coisas para com o vosso próximo. Podeis ainda exercitar essa virtude sublime
com relação a seres para os quais nenhuma utilidade terão as vossas esmolas, mas que
algumas palavras de consolo, de encorajamento, de amor, conduzirão ao Senhor supremo.

Estão próximos os tempos, repito-o, em que nesse planeta reinará a grande
fraternidade, em que os homens obedecerão à lei do Cristo, lei que será freio e esperança e
conduzirá as almas às moradas ditosas. Amai-vos, pois, como filhos do mesmo Pai; não
estabeleçais diferenças entre os outros infelizes, porquanto quer Deus que todos sejam iguais;
a ninguém desprezeis. Permite Deus que entre vós se achem grandes criminosos, para que vos
sirvam de ensinamentos. Em breve, quando os homens se encontrarem submetidos às
verdadeiras leis de Deus, já não haverá necessidade desses ensinos: todos os Espíritos
impuros e revoltados serão relegados para mundos inferiores, de acordo com as suas
inclinações.

Deveis, àqueles de quem falo, o socorro das vossas preces: é a verdadeira caridade.
Não vos cabe dizer de um criminoso: ~ um miserável; deve-se expurgar da sua presença a
Terra; muito branda é, para um ser de tal espécie, a morte que lhe infligem." Não, não é assim
que vos compete falar. Observai o vosso modelo: Jesus. Que diria ele, se visse junto de si um
desses desgraçados? Lamentá-lo-ia; considerá-lo-ia um doente bem digno de piedade;
estender-lhe-ia a mão. Em realidade, não podeis fazer o mesmo; mas, pelo menos, podeis orar
por ele, assistir-lhe o Espírito durante o tempo que ainda haja de passar na Terra. Pode ele ser
tocado de arrependimento, se orardes com fé. E tanto vosso próximo, como o melhor dos
homens; sua alma, transviada e revoltada, foi criada,
como a vossa, para se aperfeiçoar; ajudai-o, pois, a sair do lameiro e orai por ele.
(Elisabeth de França. (Havre, 1862.)



A FÉ E A CARIDADE
Um Espírito Protetor - Cracóvia, 1861

13 Eu vos disse, recentemente, meus queridos filhos, que a caridade
sem a fé não basta para manter entre os homens uma ordem
social capaz de torná-los felizes. Deveria ter dito que a caridade é
impossível sem a fé. Podereis encontrar, em verdade, impulsos generosos
até mesmo junto a pessoas sem religião, mas essa caridade
verdadeira, que apenas se exerce pela abnegação, pelo sacrifício constante
de todo interesse egoísta, somente pela fé poderá ser inspirada.
Nada, além dela, nos dá condições para carregar com coragem e
persistência a cruz desta vida.

Meus filhos, é em vão que o homem, ansioso de prazeres, tenta se
iludir quanto ao seu destino aqui na Terra, achando que deve se ocupar
apenas de sua felicidade. Deus nos criou com a certeza de sermos
felizes na eternidade, por isso a vida terrena deve servir exclusivamente
para o aperfeiçoamento moral, que se adquire mais facilmente com
o auxílio dos órgãos físicos e as exigências do mundo material, que
devem ser supridas. Além do mais, os problemas comuns da vida, a
diversidade dos gostos, das tendências e das vossas necessidades
são um meio de vos aperfeiçoardes, exercitando-vos na caridade.
Portanto, apenas à custa de concessões e de sacrifícios mútuos é que
podeis manter a harmonia entre elementos tão diversos.

Tendes toda a razão ao afirmar que a felicidade está destinada
ao homem aqui na Terra, se a procurais na prática do bem e não nos
prazeres materiais. A história da cristandade nos fala de mártires que
foram para o suplício com alegria. Hoje, na vossa sociedade, para
serdes cristãos, não é necessário nem o sacrifício do mártir, nem o
sacrifício da vida, mas única e simplesmente o sacrifício do vosso
egoísmo, do vosso orgulho e da vossa vaidade. Triunfareis, se a caridade
vos inspirar sempre, e se a fé for a vossa sustentação.


CAPÍTULO 11 - AMAR AO PRÓXIMO COMO A SI MESMO
O EGOÍSMO
Emmanuel - Paris, 1861

11 O egoísmo, esta chaga da Humanidade, tem que desaparecer
da Terra, pois retarda seu progresso moral, e é ao Espiritismo que
está reservada a tarefa de fazê-la elevar-se nas ordens dos mundos.
O egoísmo é, então, o objetivo para o qual todos os verdadeiros cristãos
devem dirigir suas armas, suas forças e sua coragem. Digo coragem,
pois é preciso mais coragem para vencer a si mesmo do que para
vencer aos outros. Que cada um empregue todos os seus esforços
em combatê-lo em si mesmo, já que esse monstro devorador de todas
as inteligências, esse filho do orgulho, é a causa de todas as misérias
aqui na Terra. É a negação da caridade e, conseqüentemente, o maior
obstáculo para a felicidade dos homens.

Jesus vos deu o exemplo da caridade e Pôncio Pilatos, o do
egoísmo. Enquanto o Justo vai percorrer as santas estações* de seu
martírio, Pilatos lava as mãos, dizendo: Que me importa? E disse aos
judeus: Este homem é justo, por que quereis crucificá-Lo? E, no
entanto, deixa-O ser conduzido ao suplício.

Se o Cristianismo ainda não cumpriu sua missão por completo, é
por causa da luta que se trava entre a caridade e o egoísmo, que invadiu
o coração humano como uma praga. É a vós, novos apóstolos da fé
esclarecidos pelos Espíritos Superiores, que cabe a tarefa e o dever de
destruir este mal para dar ao Cristianismo toda sua força e limpar o
caminho dos obstáculos que impedem sua marcha. Expulsai da Terra o
egoísmo para que ela possa elevar-se na escala dos mundos, pois está
no tempo de a Humanidade envergar seu traje de luta. Mas, para isso,
é preciso inicialmente expulsar o egoísmo dos vossos corações.

Pascal - Sens, 1862
12 Se houvesse amor entre os homens, a caridade seria melhor
praticada. Mas, para isso, seria preciso que vos esforçásseis no sentido
de libertar os vossos corações dessa couraça*, a fim de ficardes mais
sensíveis ao sofrimento do próximo. A indiferença mata todos os bons
sentimentos. O Cristo atendia a todos. Qualquer um que a Ele se
dirigisse era sempre atendido: a mulher adúltera ou o criminoso eram
igualmente socorridos. Ele nunca temia que sua própria reputação
viesse a sofrer com isso. Quando, então, o tomareis como modelo de
todas as vossas ações? Se a caridade reinasse na Terra, o mal não
dominaria. Ele fugiria envergonhado e se esconderia, pois se encontraria
deslocado em toda a parte. O mal então desapareceria, ficai bem convencidos
disto.
Começai dando o exemplo vós mesmos. Sede caridosos para
com todos. Esforçai-vos para não vos preocupar com aqueles que
vos desprezam. Deixai a Deus o cuidado de toda justiça, pois a cada
dia, em seu reino, Ele separa o joio do trigo*.

O egoísmo é o sentimento oposto da caridade. Sem a caridade
não haverá paz alguma na sociedade; e digo mais: não haverá segurança.
Com o egoísmo e o orgulho, que andam de mãos dadas, haverá
sempre uma corrida favorável ao espertalhão, uma luta de interesses
em que são pisoteadas as mais santas afeições, em que nem sequer
os laços sagrados da família são respeitados.
* N. E. - Separar o joio do trigo: separar o mal do bem. Joio: semente tóxica que nasce no meio
do trigo como praga.


CAPÍTULO 11 - AMAR AO PRÓXIMO COMO A SI MESMO
INSTRUÇÕES DOS ESPÍRITOS
A LEI DE AMOR

Lázaro - Paris, 1862
8 O amor é o sentimento que acima de tudo resume, de forma
completa, a doutrina de Jesus, e os sentimentos são os instintos que se
elevam de acordo com o progresso realizado. Na sua origem, o homem
possui instintos; mais avançado e corrompido, possui sensações; mais
instruído e purificado, possui sentimentos. No ponto mais delicado e
evoluído dos seus sentimentos, surge o amor, não o amor no sentido
vulgar da palavra, mas sim o sol interior que condensa e reúne em seu
foco ardente todos os anseios e todas as sublimes revelações. A lei de
amor substitui o individualismo pela integração das criaturas e acaba
com as misérias sociais. Feliz daquele que, no decorrer de sua vida,
ama amplamente seus irmãos em sofrimento! Feliz daquele que ama,
pois não conhece nem a angústia da alma, nem a do corpo. Seus pés
são leves e vive como se estivesse transportado fora de si mesmo.
Quando Jesus pronunciou a divina palavra, amor, os povos se
emocionaram, e os mártires, cheios de esperança, desceram ao circo.

O Espiritismo, por sua vez, vem pronunciar uma segunda palavra
do alfabeto divino. Ficai atentos, pois esta palavra ergue a laje das
sepulturas vazias: é a reencarnação, que, triunfando sobre a morte,
revela ao homem deslumbrado seu patrimônio intelectual. Ela já não
o conduz mais aos suplícios, mas sim à conquista de seu ser, elevado
e transformado. O sangue resgatou* o Espírito e o Espírito deve agora
resgatar* o homem da matéria.

Disse-lhes eu que, na sua origem, o homem possuía apenas instintos,
e aquele em que os instintos dominam está mais próximo do ponto de
partida do que da chegada. Para alcançar a meta a que o homem se
destina, é preciso vencer os instintos aperfeiçoando os sentimentos, ou
seja, melhorando-os, sufocando os germens latentes da matéria. Os instintos
são a germinação e os embriões dos sentimentos e trazem consigo
o progresso, assim como a semente contém em si a árvore. Os seres
menos avançados são aqueles que, libertando-se pouco a pouco de sua
crisálida*, estão escravizados aos seus instintos. O Espírito deve ser
cultivado como um campo. Toda riqueza futura depende do trabalho atual
e, mais do que os bens terrenos, ele vos levará à gloriosa elevação. É
então que, entendendo a lei de amor que une todos os seres, encontrareis
os suaves prazeres da alma, que são o início das alegrias celestes.

Fénelon - Bordeaux, 1861
9 O amor é de essência divina. Desde o maior até o menor, todos
vós possuís, no fundo do coração, a chama desse fogo sagrado. É um
fato que já haveis constatado muitas vezes: o pior dos homens, o
mais perverso, o mais criminoso tem por um ser ou por um objeto
qualquer uma afeição viva e ardente, à prova de tudo que tente diminuíla,
e muitas vezes atingindo proporções admiráveis.

Dissemos por um ser ou por um objeto qualquer, porque existem
entre vós indivíduos que dedicam tesouros de amor, que lhes transbordam
do coração, aos animais, às plantas e até mesmo a objetos materiais:
são os solitários, críticos da sociedade, reclamando da Humanidade em
geral. Eles resistem contra a tendência natural de sua alma, que procura
ao seu redor afeição e simpatia; rebaixam a lei de amor ao estado de
instinto. Mas, façam o que fizerem, não serão capazes de sufocar o gérmen
vivo que Deus depositou em seus corações ao criá-los. Este gérmen se
desenvolve e cresce com a moralidade e com a inteligência e, ainda que
freqüentemente comprimido pelo egoísmo, é a origem das santas e doces
virtudes que fazem as afeições sinceras e duráveis, que vos ajudam a
percorrer a difícil e dura estrada da existência humana.

Para algumas pessoas a prova da reencarnação é inaceitável e
causa horror, por acharem que outros participarão de afetuosas
simpatias das quais são ciumentas. Pobres irmãos! O vosso afeto é que
vos torna egoístas. Vosso amor é limitado a um círculo íntimo de parentes
ou de amigos e todos os demais são indiferentes para vós. Pois bem!

Para praticar a lei de amor tal qual Deus a estabelece, é preciso que
passeis progressivamente a amar todos os vossos irmãos indistintamente.
A tarefa é longa e difícil, mas se cumprirá. Deus assim o quer,
e a lei de amor é o primeiro e o mais importante ensinamento de vossa
nova doutrina, pois é ela que deve um dia destruir o egoísmo sob
qualquer forma que se apresente, porque, além do egoísmo pessoal,
há ainda o egoísmo de família, de casta, de nacionalidade. Disse Jesus:
Amai ao vosso próximo como a vós mesmos; pergunta-se, qual é o
limite do próximo? Seria a família, a religião, a Pátria? Não. É toda a
Humanidade. Nos mundos superiores é o amor mútuo que harmoniza
e dirige os Espíritos adiantados que os habitam. E o vosso Planeta,
destinado a um progresso que se aproxima, para sua transformação
social, verá essa lei sublime ser praticada por seus habitantes, como
um reflexo da Divindade.

Os efeitos da lei de amor são o aperfeiçoamento moral da raça
humana e a felicidade durante a vida terrena. Os mais rebeldes e os mais
viciosos deverão se reformar, quando virem os benefícios produzidos
por esta prática: Não façais aos outros o que não gostaríeis que vos
fizessem, mas sim fazei a eles todo o bem que está ao vosso alcance.
Não acrediteis na secura e no endurecimento do coração humano.
Ele cede, mesmo a contragosto, ao verdadeiro amor. É como se
fosse um ímã ao qual não se pode resistir. O contato desse amor vivifica
e fecunda os germens dessa virtude que estão nos vossos corações
adormecidos. A Terra, morada de provações e de exílio, será então
purificada por esse fogo sagrado e verá serem nela praticados a caridade,
a humildade, a paciência, a dedicação, a abnegação, a resignação
e o sacrifício, virtudes todas filhas do amor. Não vos canseis de ouvir as
palavras de João, o Evangelista. Como sabeis, quando a enfermidade
e a velhice suspenderam o curso de suas pregações, ele apenas repetia
estas doces palavras: Meus filhinhos, amai-vos uns aos outros.
Caros irmãos amados, praticai estas lições; sua prática é difícil,
mas a alma retira delas um imenso benefício. Acreditai em mim, fazei
o sublime esforço que vos peço: “Amai-vos”, e vereis a Terra se transformar
e tornar-se um novo paraíso, onde as almas virtuosas
desfrutarão do repouso merecido.

* N. E. - Resgatou/resgatar: redimir, salvar, apagar a culpa.
* N. E. - Crisálida: corpo da borboleta quando ainda é lagarta; (neste caso) transformando,
mudando o comportamento.

CAPÍTULO X
OS QUE SÃO MISERICORDIOSOS

É permitido repreender os outros, notar as imperfeições de outrem, divulgar o mal de
outrem?

19. Ninguém sendo perfeito, seguir-se-á que ninguém tem o direito de repreender o
seu próximo?
Certamente que não é essa a conclusão a tirar-se, porquanto cada um de vós deve
trabalhar pelo progresso de todos e, sobretudo, daqueles cuja tutela vos foi confiada.
Mas, por isso mesmo, deveis fazê-lo com moderação, para um fim útil, e não, como as
mais das vezes, pelo prazer de denegrir. Neste último caso, a repreensão é uma maldade; no
primeiro, é um dever que a caridade manda seja cumprido com todo o cuidado possível. Ao
demais, a censura que alguém faça a outrem deve ao mesmo tempo dirigi-la a si próprio,
procurando saber se não a terá merecido. - S. Luís. (Paris, 1860.)

20. Será repreensível notarem-se as imperfeições dos outros, quando daí nenhum
proveito possa resultar para eles, uma vez que não sejam divulgadas?

Tudo depende da intenção. Decerto, a ninguém é defeso ver o mal, quando ele existe.
Fora mesmo inconveniente ver em toda a parte só o bem. Semelhante ilusão prejudicaria o
progresso. O erro está no fazer-se que a observação redunde em detrimento do próximo,
desacreditando-o, sem necessidade, na opinião geral. Igualmente repreensível seria fazê-lo
alguém apenas para dar expansão a um sentimento de malevolência e à satisfação de apanhar
os outros em falta. Dá-se inteiramente o contrário quando, estendendo sobre o mal um véu,
para que o público não o veja, aquele que note os defeitos do próximo o faça em seu proveito
pessoal, isto é, para se exercitar em evitar o que reprova nos outros. Essa observação, em
suma, não é proveitosa ao moralista? Como pintaria ele os defeitos humanos, se não
estudasse os modelos? - S. Luís. (Paris, 1860.)

21. Haverá casos em que convenha se desvende o mal de outrem?

É muito delicada esta questão e, para resolvê-la, necessário se toma apelar para a
caridade bem compreendida. Se as imperfeições de uma pessoa só a ela prejudicam, nenhuma
utilidade haverá nunca em divulgá-la. Se, porém, podem acarretar prejuízo a terceiros, devese
atender de preferência ao interesse do maior número. Segundo as circunstâncias,
desmascarar a hipocrisia e a mentira podeconstituir um dever, pois mais vale caia um homem,
do que virem muitos a ser suas vítimas.
Em tal caso, deve-se pesar a soma das vantagens e dos inconvenientes. - São Luís. (Paris,
1860.)


Capítulo X- Bem aventurados os misericordiosos.
A Indulgência
José, Espírito protetor. (Bordéus, 1863.)

16. Espíritas, queremos falar-vos hoje da indulgência, sentimento doce e fraternal que
todo homem deve alimentar para com seus irmãos, mas do qual bem poucos fazem uso.
A indulgência não vê os defeitos de outrem, ou, se os vê, evita falar deles, divulgá-los.
Ao contrário, oculta-os, a fim de que se não tornem conhecidos senão dela unicamente, e, se a
malevolência os descobre, tem sempre pronta uma escusa para eles, escusa plausível, séria,
não das que, com aparência de atenuar a falta, mais a evidenciam com pérfida intenção.

A indulgência jamais se ocupa com os maus atos de outrem, a menos que seja para
prestar um serviço; mas, mesmo neste caso, tem o cuidado de os atenuar tanto quanto
possível. Não faz observações chocantes, não tem nos lábios censuras; apenas conselhos e, as
mais das vezes, velados. Quando criticais, que conseqüência se há de tirar das vossas
palavras? A de que não tereis feito o que reprovais, visto que estais a censurar; que valeis
mais do que o culpado. O homens! quando será que julgareis os vossos próprios corações, os
vossos próprios pensamentos, os vossos próprios atos, sem vos ocupardes com o que fazem
vossos irmãos? Quando só tereis olhares severos sobre vós mesmos?

Sede, pois, severos para convosco, indulgentes para com os outros. Lembrai-vos
daquele que julga em última instância, que vê os pensamentos íntimos de cada coração e que,
por conseguinte, desculpa muitas vezes as faltas que censurais, ou condena o que relevais,
porque conhece o móvel de todos os atos. Lembrai-vos de que vós, que clamais em altas
vozes: anátema! tereis, quiçá, cometido faltas mais graves.

Sede indulgentes, meus amigos, porquanto a indulgência atrai, acalma, ergue, ao
passo que o rigor desanima, afasta e irrita. - José, Espírito protetor. (Bordéus, 1863.)


Capítulo X- Bem aventurados os misericordiosos.
O argueiro e a trave no olho

9. Como é que vedes um argueiro no olho do vosso irmão, quando não vedes uma
trave no vosso olho? - Ou, como é que dizeis ao vosso irmão: Deixa-me tirar um argueiro
ao teu olho, vós que tendes no vosso uma trave? - Hipócritas, tirai primeiro a trave ao
vosso olho e depois, então, vede como podereis tirar o argueiro do olho do vosso irmão.
(S. MATEUS, cap. VII, vv. 3 a 5.)

10. Uma das insensatezes da Humanidade consiste em vermos o mal de outrem, antes
de vermos o mal que está em nós. Para julgar-se a si mesmo, fora preciso que o homem
pudesse ver seu interior num espelho, pudesse, de certo modo, transportar-se para fora de si
próprio, considerar-se como outra pessoa e perguntar: Que pensaria eu, se visse alguém fazer
o que faço? Incontestavelmente, é o orgulho que induz o homem a dissimular, para si mesmo,
os seus defeitos, tanto morais, quanto físicos. Semelhante insensatez é essencialmente
contrária à caridade, porquanto a verdadeira caridade é modesta, simples e indulgente.

Caridade orgulhosa é um contra-senso, visto que esses dois sentimentos se neutralizam um ao
outro. Com efeito, como poderá um homem, bastante presunçoso para acreditar na
importância da sua personalidade e na supremacia das suas qualidades, possuir ao mesmo
tempo abnegação bastante para fazer ressaltar em outrem o bem que o eclipsaria, em vez do
mal que o exalçaria? Por isso mesmo, porque é o pai de muitos vícios, o orgulho é também a
negação de muitas virtudes. Ele se encontra na base e como móvel de quase todas as ações
humanas. Essa a razão por que Jesus se empenhou tanto em combatê-lo, como principal
obstáculo ao progresso.



Capítulo IX-  Bem-aventurados os que são brandos e pacíficos
A cólera
Um Espírito protetor. (Bordéus, 1863.
9. O orgulho vos induz a julgar-vos mais do que sois; a não suportardes uma
comparação que vos possa rebaixar; a vos considerardes, ao contrário, tão acima dos vossos
irmãos, quer em espírito, quer em posição social, quer mesmo em vantagens pessoais, que o
menor paralelo vos irrita e aborrece. Que sucede então? - Entregais-vos à cólera.

Pesquisai a origem desses acessos de demência passageira que vos assemelham ao
bruto, fazendo-vos perder o sangue-frio e a razão; pesquisai e, quase sempre, deparareis com
o orgulho ferido. Que é o que vos faz repelir, coléricos, os mais ponderados conselhos, senão
o orgulho ferido por uma contradição? Até mesmo as impaciências, que se originam de
contrariedades muitas vezes pueris, decorrem da importância que cada um liga à sua
personalidade, diante da qual entende que todos se devem dobrar.

Em seu frenesi, o homem colérico a tudo se atira: à natureza bruta, aos objetos
inanimados, quebrando-os porque lhe não obedecem. Ah! se nesses momentos pudesse ele
observar-se a sangue-frio, ou teria medo de si próprio, ou bem ridículo se acharia! Imagine
ele por aí que impressão produzirá nos outros. Quando não fosse pelo respeito que deve a si
mesmo, cumpria-lhe esforçar-se por vencer um pendor que o torna objeto de piedade.

Se ponderasse que a cólera a nada remedeia, que lhe altera a saúde e compromete até a
vida, reconheceria ser ele próprio a sua primeira vítima. Mas, outra consideração, sobretudo,
devera contê-lo, a de que torna infelizes todos os que o cercam. Se tem coração, não lhe será
motivo de remorso fazer que sofram os entes a quem mais ama? E que pesar mortal se, num
acesso de fúria, praticasse um ato que houvesse de deplorar toda a sua vida!

Em suma, a cólera não exclui certas qualidades do coração, mas impede se faça muito
bem e pode levar à prática de muito mal. Isto deve bastar para induzir o homem a esforçar-se
pela dominar. O espírita, ao demais, é concitado a isso por outro motivo: o de que a cólera é
contrária à caridade e à humildade cristãs. - Um Espírito protetor. (Bordéus, 1863.


Capítulo 6 - O Cristo Cconsolador.
Advento* do Espírito de Verdade.

O Espírito de Verdade - Paris, 1860.
5. Venho, como antigamente, entre os filhos perdidos de Israel,
trazer a verdade e pôr fim às trevas. Escutai-me. O Espiritismo, tal
como antigamente minha palavra, deve lembrar aos incrédulos que
acima deles reina uma verdade soberana: o Deus bom, o grande Deus
que faz germinar a planta e ergue as ondas. Revelei a doutrina divina;
como um ceifeiro*, juntei em feixes o bem espalhado em meio à Humanidade
e disse: Vinde a mim, todos vós que sofreis!

Mas os homens ingratos se desviaram do caminho retoe largo
que conduz ao reino de meu Pai e se perderam nos ásperos atalhos da
incredulidade. Meu Pai não quer aniquilar a raça humana; quer que,
ajudando-vos uns aos outros, mortos e vivos, ou seja, mortos segundo
a carne, pois a morte não existe, socorrei-vos, e que não mais a voz
dos profetas e dos apóstolos, mas a voz daqueles que não estão mais
na Terra se faça ouvir para vos gritar: Orai e acreditai! Pois a morte é a
ressurreição e a vida é a prova escolhida durante a qual vossas virtudes
cultivadas devem crescer e se desenvolver como o cedro.

Homens fracos, que percebeis as sombras de vossas inteligências,
não afasteis a tocha que a clemência divina coloca nas vossas
mãos para iluminar vosso caminho e vos reconduzir, crianças perdidas,
aos braços de vosso Pai.

Sinto-me compadecido pelas vossas misérias, pelas vossas fraquezas
imensas, para não estender uma mão segura aos infelizes
desgarrados que, vendo o Céu, caem no abismo do erro. Acreditai, amai,
meditai sobre as coisas que vos são reveladas. Não mistureis o joio ao
bom grão, as utopias, ou seja, as mentiras ilusórias, com as verdades.
Espíritas! Amai-vos, eis o primeiro ensinamento; instruí-vos, eis o segundo.

Todas as verdades se encontram no Cristianismo. Os erros que
nele se enraizaram são de origem humana. Eis que de além-túmulo, que
acreditáveis ser o nada, vozes vos gritam: Irmãos, nada tem fim; Jesus
Cristo é o vencedor do mal; sede vós os vencedores da incredulidade.

* N. E. - Advento: vinda, chegada.
* N. E. - Ceifeiro: colhedor de cereais.